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A sociedade me faz ter medo de andar em uma cadeira de rodas
Crédito da foto para Doug Maloney on Unsplash

A sociedade me faz ter medo de andar em uma cadeira de rodas

Coluna Conhecendo as Diferenças por Marina Salla - Cabeçalho

Quem disse que o Brasil é para todos?

Bem vindos de volta! Como vocês estão? Eu, ah, não muito bem…

Já faz quase um mês que eu sinto uma dor diferente no meu pé esquerdo. É uma dor tão intensa e tão complicada, que está me tirando a vontade de fazer qualquer coisa. Não importa se eu faço um esforço mínimo, ela simplesmente está ali.

Como lidar com a dor?

A dor é uma coisa que você enfrenta sozinho. É um caminho longo, solitário, cheio de cansaço e de pensamentos suicidas – se não for um pensamento literalmente suicida, é um pensamento suicida relacionado à vida social, emprego e todas as coisas que exigem que você saia de casa.

Eu sou uma pessoa que está acostumada a sentir dor, então quando eu falo que está doendo, é porque está doendo muito.

As pessoas lidam com a dor de maneiras diferentes: se enfurnando dentro de casa; fingindo que ela não existe;  tomando remédios…

Eu nunca parei a minha vida por causa de dor, mas essa está me fazendo repensar se as coisas que preciso fazer valem o sofrimento.

O que eu posso fazer para ela parar?

Estou fazendo fisioterapia, acupuntura, tomando remédios… Mas o que realmente me ajudaria a não sentir dor é: não andar demais.

Muitas pessoas, com Charcot Marie Tooth, usam a cadeira de rodas porque andar simplesmente dói demais – mas eu não sei se isso daria certo aqui no Brasil.

Se as pessoas já brigam comigo quando eu pego uma fila especial, o que elas vão falar se eu pegar a fila preferencial (de cadeira de rodas) e tiver que levantar para ser atendido? Afinal, não sei se você já reparou, mas muitos ambientes que possuem fila preferencial não comportam um deficiente.

Quando eu visitei o parque da Universal, eu usei uma cadeira de rodas para poupar esforço, mas às vezes eu queria andar – então eu simplesmente deixava a cadeira de rodas num canto e ia passear, mas eu não sinto que conseguiria fazer isso aqui.

A verdade é: a cidade vai me aceitar menos ainda, se eu usar uma cadeira de rodas.

Ontem eu fui a uma loja que, se eu tivesse de cadeira de rodas,;eu não teria conseguido nem ter entrado, por conta dos degraus.

Sempre que eu entro em um lugar,;examino se ele é “deficiente friendly” – mas na maioria das vezes ele não é.

Eu não tenho medo de andar de cadeira de rodas porque isso pode significar que minha doença piorou, eu tenho medo porque a sociedade é selvagem,;as ruas são primitivas e eu poderia aproveitar esse fucking mundo muito menos do que eu já consigo.

Se eu dependesse de uma cadeira de rodas o tempo todo, nem fazer compras no supermercado eu conseguiria sozinha.

Sabe quem pode mudar essa realidade? Pois é… Aposto que você sabe a resposta.

Até terça que vem!

~MarinaSalla~

Marina Salla da Coluna Conhecendo as Diferenças por Marina Salla

 

Marina Salla Marchiori, 26, é professora de idiomas, escritora e também portadora da síndrome Charcot Marie Tooth há 10 anos. Seu intuito é levar os desafios das pessoas com deficiência;até aqueles que não são, a fim de despertar maior consciência e altruísmo na sociedade.

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