BioExtratus
BioExtratus
Quando o médico deixa o profissionalismo em casa

Quando o médico deixa o profissionalismo em casa

Coluna Conhecendo as Diferenças por Marina Salla - Cabeçalho

Não seja esse médico

Nós sabemos que a síndrome Charcot Marie Tooth, assim como muitas outras, está naquele capítulo que muitos estudantes de medicina resolvem pular. Sabemos que a maioria deve pensar: “ah, quase ninguém tem, então não vou estudar isso, não deve cair na prova”.

Pois é… Mas adivinha quem acaba sofrendo com isso?

Por mais que as pesquisas insistam em dizer que a CMT é a doença neurológica mais comum, a realidade – vivida na prática – é bem diferente. É muito difícil encontrar um médico que fale com convicção sobre ela, na verdade, já é bastante difícil encontrar um médico que já ouviu falar sobre ela.

Eu faço parte de diversos grupos de apoio no Facebook (grupos com gente do mundo todo) e, curiosamente quando eu estava pensando nisso, uma pessoa postou a seguinte pergunta: “qual foi a coisa mais insensível que um médico já te falou?”

Fiquei muito impressionada com as respostas, eu não conseguia acreditar que existiam pessoas que tem capacidade de falar essas coisas e ainda se auto proclamar médicos, então resolvi dividir com vocês – principalmente porque isso foi um pedido de um dos integrantes do grupo, ele disse que queria que todos esse comentários chegassem ao público.

 Médico que está lendo esse post, um recado: não seja esse médico.

 “CMT não causa dor”

Comecei leve. As pessoas insistem muito nessa bobagem, o argumento é: o pé perde a sensibilidade, então não há dor – não queiram ver a minha cara quando alguém me diz isso. Se alguém leigo me diz isso (e, sinto dizer, você ainda é leigo depois de ler um artigo sobre isso na Internet) é uma coisa, mas um médico?! Ele deveria saber mais.

“Nossa, estou feliz em finalmente conhecer alguém com CMT! Na faculdade de medicina só vimos essa síndrome em filmes!”

Pois é… A pessoa que escreveu isso disse que o médico estava muito empolgado.

“Fui fazer o exame médico para o meu primeiro emprego quando eu tinha dezoito e o médico me disse que realmente vou precisar trabalhar bastante para me sustentar,;porque certamente nenhum homem vai querer casar com uma garota com CMT”

Ela também disse no comentário que ficou quieta, mas pensou em seu noivo.

“Eu estava conversando com um cirurgião para saber de minhas opções e a primeira coisa que ele disse foi: “então estamos pensando em amputação?”;e nem havia olhado para o meu pé ainda”

Sem comentários.

“O pessoal do meu Seguro Social me mandou uma carta dizendo: “nos avise quando você melhorar” eu não soube o que dizer”

Ok, não foram médicos, mas o que será que eles vão fazer quando descobrirem que essa pessoa não vai, realmente, melhorar?

“Quando eu fui tirar o cartão de estacionamento para deficiente, o médico me pediu para ficar em um pé só”

Aqui no Brasil apenas apresentamos o laudo médico, mas se um médico me dissesse isso,;acho que eu riria na cara dele.

“O ortopedista me disse que meu pé era o mais ferrado que ele já viu,;desabei a chorar e então e ele me disse: por que está chorando? Com certeza você sabe disso”.

Beleza de sensibilidade, merece um prêmio.

“Quando eu tinha doze anos, um médico me disse que eu estaria em uma cadeira de rodas aos 30, hoje tenho 67 e sem cadeira de rodas e eu ainda trabalho”

Da aquela vontade de esfregar isso na cara do médico, não dá? Se eu, com dezoito anos,;quase entrei em depressão quando me disseram que esse era um possível futuro, imagina uma criança de doze anos.

 “Um neurologista me disse que não havia razão em fazer um teste de genética para CMT,; saber não mudaria o fato que eu não posso fazer nada”

 “Quando diagnosticada, minha mãe perguntou ao médico o que isso significava e ele respondeu que significa que ela não;é normal e nunca vai ser até que alguma coisa mude na medicina”

 “Os remédios e suplementos são para o agora,;não para prolongar sua vida, cada coração é designado apenas para algumas batidas”

 E com essa me despeço, podendo fazer uma parte dois, três, quatro…

 Gente, também quero me desculpar pela ausência, meu pé está quebrado! E médicos, melhorem, por favor.

 ~MarinaSalla~

Marina Salla da Coluna Conhecendo as Diferenças por Marina Salla

 

Marina Salla Marchiori, responsável pela Coluna Conhecendo as Diferenças, tem 26, é professora de idiomas, escritora e também portadora da síndrome Charcot Marie Tooth há 10 anos. Seu intuito é levar os desafios das pessoas com deficiência;até aqueles que não são, a fim de despertar maior consciência e altruísmo na sociedade.

Acompanhe a Coluna Conhecendo as Diferenças

Veja Também

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

WhatsApp chat