O cabelo da Peppa

Caso do MAM: O nu, a arte e a pedofilia

Hoje temos falado muito sobre as minorias: mulheres, homossexuais, negros,indígenas, deficientes, o que é sinal de que há uma preocupação em diminuir os privilégios das classes dominantes.

 Por falar nisso, fiquei muito surpresa na semana passada quando li que o livro “Peppa” de Silvana Randotinha sido retirado de circulação pelo conteúdo racista do mesmo.

Em uma ocasião, li o livro, usei em sala de aula para trabalhar as diferenças entre as pessoas, a auto-aceitação e  fazer reflexões a cerca desses assuntos. Talvez, minha ingenuidade ou falta de aprofundamento, não me tenha permitido olhar o livro com olhos mais críticos.

Tenho uma filha de descendência negra, que tem muuuuito cabelo. Sei que a quantidade de cabelo a incomoda. Dei o livro de presente a ela enaltecendo a quantidade e a força deles.

Jamais li racismo no livro. Sou pedagoga e acompanho um pouco como as crianças pensam. Elas fantasiam, saem da realidade facilmente, se divertem com impossibilidades, riem de acontecimentos sérios, inventam histórias fantásticas, atribuem vida aos objetos com uma criatividade encantadora, entram em contato com o absurdo para conhecer o real.

O fato é que a blogueira Ana Paula Xongani, leu-o de forma bem crítica, fez apontamentos muito sérios, citando a existência de  racismo no linguajar da autora e nos desenhos que acompanham a história.

E então lá fui eu, fazer nova leitura com olhar mais apurado e atentando às novas perspectivas.

Vendo pelas imagens do livro percebemos que sim, as imagens podem chocar. Mas será que o choque não está apenas na cabeça das pessoas que estão procurando por isso?  Será que nesse momento em que vivemos não há muita gente de plantão buscando brechas para criticar e encontrar erros nas pessoas e situações?

Crianças brancas também são discriminadas por usar óculos, por serem gordas ou magrelas demais, por terem espinhas…

Crianças indígenas são discriminadas por serem deficientes, por não terem recursos para frequentarem bons hospitais, por não falarem a língua dos brancos…

Crianças negras são discriminadas por não aprenderem, por serem meninas, por intolerâncias religiosas…

Muda-se a cor do cabelo, alisa-se, encrespa-se, aumenta-se, encurta-se o tempo todo. Isso acontece com crianças brancas, negras ou indígenas…

Usar um alicate para cortar o cabelo para usar o fio fechar o pacote de biscoitos foi o modo da autora  exemplificar a força e a utilidade do cabelo, num sentido lúdico, na minha opinião.

Relatar que o tratamento demorou 16 horas e quarenta e oito minutos foi um jeito dela usar o exagero de horas,como nós mesmos fazemos ao contar histórias ou como a própria criança faz quando que comunicar algo intenso.

Desenhar o pente e a escova quebrados durante o tratamento do cabelo foi o modo decomunicar a dificuldade que houve no tratamento.

Ainda bem que as crianças mantêm a capacidade de fantasiar e enxergar os fatos com mais leveza do que os adultos e sobrevivem a esse momento em que são protegidas de tudo: das tristezas, das frustrações, das chateações e da própria realidade.

Cansada de tanto mimimi e de tanta cobrança para que sejamos todos,o tempo todo,“politicamente corretos”. Sigamos os padrões éticos, sejamos bons modelos para nossas crianças, porém sem dar tanta importância a questões que podem ser discutidas, debatidas, clareadas, usadas para reelaborar novas perguntas e questionamentos.

A Colunista

ROSÂNGELA SILVA, responsável pela coluna ‘Rota Educacional’é pedagoga, pós-graduada em Psicopedagogia e Metodologias da educação à distância. Atua há quase 30 anos na área da educação passando pela sala de aula, coordenação e direção. Realiza cursos e palestras e tem como hobby escrever crônicas e poesias (Blog Encucações educacionais e algo mais www.mrosangela.blogspot.com e Mulher na direção www.facebook.com/mulheresnadirecao/).

 

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